Estresse na Instituição de Trabalho: Machismo e o Papel da Mulher

O estresse na instituição de trabalho atinge um nível tal que a Federação Mundial para a Saúde Mental considera o mundo dos negócios como um mundo com vinte e quatro horas de trabalho por dia, hipercompetição, excesso de informação e fim de segurança no emprego, caracterizando-se a existência de uma epidemia global de estresse.

Subjacente a esse estresse está a hipercompetitividade do capitalismo atual, caracterizado pelo dogma do crescimento contínuo – expansão, pela assertividade exacerbada, pela necessidade de vencer a qualquer preço, pelo consumismo desenfreado, pela preponderância do ter sobre o ser e por outros valores que entendemos como caracterizando uma concepção machista de vida.

Esta concepção machista está, conforme a situa Capra (1982), profundamente alicerçada na profunda revolução no pensamento ocidental ocorrida no século XVII, protagonizada por expoentes da filosofia e da ciência como Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton. A visão da natureza como uma máquina perfeita, governada por leis matemáticas exatas, ganha corpo a partir das elucubrações desses homens de excepcional talento. Igualmente a idéia de que a natureza é uma fêmea que deve ser explorada muito tem a ver com o que tais homens propalaram, particularmente Francis Bacon. As noções de Newton de espaço e tempo infinitos fundamentam a crença na necessidade de crescimento contínuo, um dogma do capitalismo.

Uma concepção machista da vida mais diretamente incidente sobre o trabalho está contida no próprio "espírito" do capitalismo conforme identificado por Weber (1905) em sua obra "A ética protestante e o ‘espírito’ do capitalismo": o capital selecionou condutas de vida e concepções de profissão que atendessem aos seus objetivos. Esses objetivos seriam o dever do trabalho sem descanso como leitmotiv da vida, o não repouso sobre a riqueza conquistada mas, sim, a acumulação de capital mediante coerção ascética à poupança. O empresário que insistisse em transgredir essas normas, que tentasse manter a conduta "tradicionalista" de vida (o ser humano não quer, "por natureza", ganhar mais e mais dinheiro, mas tão somente, viver do modo a que está mais habituado e ganhar apenas o necessário para tanto) seria inapelavelmente eliminado do mercado, do mesmo modo que o trabalhador que a elas não possa ou não queira se adaptar será posto no olho da rua.

Contra a ancestral predominância do macho opôs-se o movimento feminista, cujo ímpeto foi particularmente marcante a partir da década de sessenta do século XX. Na ânsia de conquistarem direitos iguais aos do homem, muitas mulheres passaram a acreditar, inclusive, e isto hoje soa politicamente correto, que “homens e mulheres são iguais”, o que não encontra fundamento sob o ponto de vista biológico. Mas o movimento feminista proporcionou às mulheres marcantes conquistas, dentre as quais uma formidável ampliação de sua participação no mercado de trabalho.

A crescente inserção da mulher nesse mercado gerou a expectativa de que valores intrínsecos à condição feminina – intuição, sensibilidade, emoção, concretude, subjetividade, atenção a detalhes, inter e intradisciplinaridade, por exemplo – seriam aportados ao ambiente das organizações e que, conseqüentemente, trariam um equilíbrio entre o Yang – masculino e o Yin – feminino.

Ao se defrontarem com o preconceito machista que as considerava inferiores ao homem para o trabalho, as mulheres se viram num dilema: enfrentar este preconceito e aportar à instituição de trabalho a contribuição de valores próprios à sua feminilidade ou, inversamente, sufocar sua natureza e adotar valores próprios do homem para garantir a sua afirmação num ambiente que supervaloriza a competição, a lógica, a repressão das emoções e da intuição.

Paralelamente, o decidido ingresso da mulher no mercado de trabalho trouxe um desequilíbrio na estrutura familiar, historicamente fundamentada no homem exercendo o exclusivo papel de provedor e na mulher como cuidadora do lar, com profundas repercussões na família e na ordem social.

Propusemo-nos, em monografia sobre o tema (SILVA, 2004), a discutir o modelo atual do capitalismo, os efeitos de  sua concepção machista sobre o caráter e a saúde física e mental dos trabalhadores, e da sociedade como um todo, e como a mulher, tentando conciliar seus diversos papeis – profissional, mãe, esposa, filha, cidadã – vem atuando neste contexto e as conseqüências desta atuação. As conclusões desse  trabalho, consubstanciadas em pesquisa bibliográfica, em depoimentos de psicólogas e de executivas  e  em nossa longa vivência profissional são as seguintes:

Vivemos um momento de exacerbação do individualismo, da competitividade, da preponderância do ter sobre o ser. Os valores estão, mais e mais, associados ao poder e à capacidade de consumir. No dizer do jurista Ives Gandra Martins (MARTINS,2004, p.A13), a célebre premissa de Descartes “penso, logo existo”, é alterada para “consumo, logo existo”. A atriz e roteirista Patrícia Travassos (2002 apud MORAES, p.47) faz outra paráfrase, “trabalho, logo existo”, para descrever a condição de uma humanidade muito competitiva, o que é uma forma de não ter contato com os próprios sentimentos.

O desenvolvimento da tecnologia, da informática, das técnicas de gestão etc. propiciou o aumento da produtividade e da competitividade das empresas na era da informática em que vivemos. Entretanto, diferentemente de uma crença bastante difundida entre as pessoas, tais desenvolvimentos, em geral, não se refletem em uma condição de menos trabalho e/ou maior bem estar para o trabalhador.

O machismo, assim definido como um comportamento caracterizado nas empresas pela extrema valorização da competitividade e da conquista a qualquer preço, pela ganância, pela exploração da natureza e das pessoas, está levando o planeta em que vivemos a um gravíssimo desequilíbrio ecológico e o trabalhador a uma situação de mal estar evidenciado por uma epidemia mundial de estresse na organização do trabalho, com reflexos sobre a sociedade como um todo.

O mal estar não se confina ao ambiente de trabalho. Obrigado a trabalhar sempre mais, motivado pelo medo da demissão ou pelo engodo da participação nos lucros, o trabalhador vê sua vida privada desaparecer, soterrada pela sua colocação em disponibilidade em tempo integral ao empregador. A família e, particularmente os filhos, sofrem as seqüelas desta situação.

As desigualdades extremas de riqueza e poder resultantes das práticas do neo-liberalismo são uma grave ameaça à sociedade. Segundo o economista Lester Thurow, do consagrado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (1996 apud SOMMER, p.A3): “Ninguém tentou antes aplicar a “lei do mais forte” do capitalismo selvagem por um período muito longo, em uma democracia moderna. Assim, não sabemos até que ponto a crescente desigualdade e a queda do salário real podem ir antes que se produza uma ruptura social”. O próprio Thurow acredita que, em vez de um colapso repentino ou uma revolução política, o mais provável será “um círculo vicioso de descontentamento individual, desorganização social, rendimentos em lenta queda, em espiral, algo similar à longa queda do Império Romano até as profundezas da Idade Média”.

A evocação da Europa Medieval, caracterizada por cidades com muralhas e um campo sem lei infestado de bandidos e assaltantes se faz num momento em que as condições sociais de tantas de nossas cidades já guardam preocupantes semelhanças com as daquele período histórico.

Ao menos em nível de discurso as grandes corporações incorporaram em sua missão a preocupação com uma atuação que contribua para um desenvolvimento social, econômico e ambientalmente sustentável. Na prática, entretanto, esforços nesse sentido acabam sendo grandemente limitados pela necessidade de se manterem mais e mais competitivas, para sobreviver à feroz competição de mercado. A mão que agride o homem e o meio-ambiente é ainda muito mais forte do que a mão que os protegem.

O crescente engajamento das mulheres no mercado de trabalho, impulsionado pelos movimentos feministas especialmente reforçados nos anos da década de 1960, trouxe a expectativa de que elas aportariam suas características próprias, resultando num equilíbrio entre o masculino e o feminino. Mais uma vez nossas pesquisas comprovam que isto não necessariamente se deu. Como reação ao preconceito ancestral que as consideravam inferiores, muitas mulheres caíram na armadilha machista e passaram a atuar como homens, pois somente assim seriam respeitadas, valorizadas. Para essas mulheres, a postura de rejeição de seus valores femininos foi facilitada pela falácia do conceito politicamente correto de que homens e mulheres são iguais.

Por outro lado, a participação da mulher no trabalho, nos termos em que ele hoje se apresenta, invadindo o espaço privado, afastou-a do lar e de seus tradicionais papeis, notadamente aquele que ela exercitava quase que com exclusividade, o de educadora dos filhos. Ao ingressar na selva empresarial, em busca de um legítimo direito de busca de autonomia e realização, sem uma rediscussão do tempo dela e do próprio homem, a mulher começou a negligenciar as crianças, como os homens sempre o fizeram. Na direção oposta do movimento de inserção e de afirmação da mulher no mercado de trabalho, muitas mulheres estão questionando a relação custo-benefício da condição conquistada e retornando à vida privada, sem que isso obrigatoriamente signifique uma volta da “Amélia”, a mulher submissa imortalizada na canção popular.

Sintetizamos as nossas considerações conforme a seguir:

O machismo, entendido como o sentimento que leva à preponderância do ter sobre o ser, à ganância, à conquista a qualquer preço, à feroz competição entre países, empresas e as pessoas é fator propulsor do capitalismo em sua forma atual.

Esse capitalismo, conhecido como neocapitalismo, capitalismo flexível, capitalismo globalizado, ou sob qualquer outro nome, inflige sofrimento para os que trabalham, desemprego, e um imenso aprofundamento da desigualdade social. A era da informática não é uma benção para o trabalhador, nem para a sociedade. Há uma sombria perspectiva para o futuro caso não haja uma verdadeira tomada de consciência da sociedade em geral e da classe política em particular quanto à importância do papel do Estado em sua capacidade de cuidar dos deserdados do mercado.

O machismo não é apanágio dos homens. As mulheres, em seu crescente engajamento no mercado de trabalho, em grande número passaram, como reação ao preconceito machista que as consideram inferiores, a atuar como homens, numa exacerbação do seu animus junguiano.

Como resultado desta situação, uma possível feminilização do mercado de trabalho não ocorreu: a mulher está estressada, não consegue equilibrar os diversos papéis que dela se espera desempenhar, descuida do seu papel de mãe, da mesma forma que historicamente o homem descuida do seu papel de pai, com graves conseqüências sobre a educação dos filhos.

As grandes corporações, conquanto ainda se possa duvidar da seriedade de seus propósitos, passam, ao menos em nível de discurso, a atentar para a sua responsabilidade social. Por outro lado, um crescente número de mulheres está se dando conta de que sua entrada no mercado de trabalho se deu sem a necessária rediscussão do tempo – com seus maridos, companheiros e com o patrão. Seria necessária uma reengenharia do tempo, conforme proposta de Oliveira (2003).

Não é possível precisar os desdobramentos futuros desta situação. Apenas se constata a gravidade do momento atual. Uma sincera tomada desta consciência pelos homens, pelas mulheres, pela sociedade, é condição sine qua non para a reversão das sombrias expectativas traçadas por tantos especialistas no campo da economia, psicologia, sociologia e de outras ciências afins. Faz-se necessário um trabalho permanente de reflexão e de atuação sobre as práticas perversas e desumanizantes do trabalho, de desmistificação de conceitos propalados como verdades absolutas e, como tal, aceitos sem questionamentos.

Referências Bibliográficas:

CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo: Editora Cultrix, 1982.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o "espírito" do capitalismo. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 2004.

SILVA, José Antonio de Carvalho e. O Estresse na Instituição de Trabalho: Machismo e o papel da Mulher, 2004. Universidade Estácio de Sá.

MARTINS, Ives Gandra da Silva. Anti-semitismo e Anti-cristianismo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 01/07/2004.

MORAES, Cátia. Absolvendo a Cinderela. Rio de Janeiro. MAUAD Editora Ltda., 2002.

SOMMER, Mark. A desigualdade cresce no mundo globalizado. Gazeta Mercantil, São Paulo, 13/05/1996.

OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Reengenharia do Tempo. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda., 2003.